Várias decisões simultâneas
Ao participar do jogo anterior, tomamos a melhor decisão para o nosso objetivo: apostamos o valor que maximiza a taxa de crescimento do nosso patrimônio e não pagamos um pedágio para participar do jogo maior que a mediana da distribuição dos retornos acumulados. Mas essa dinâmica nunca acontece exatamente assim, pois podemos investir em vários ativos ao mesmo tempo. E, para piorar, em investimentos financeiros também podemos estar comprados ou vendidos nos ativos, ou seja, o percentual investido pode ser negativo!
Para complementar nossa compreensão dos princípios para decidir qual percentual do patrimônio alocar a cada investimento, precisamos analisar o comportamento de um ativo em relação ao de outros ativos, ou seja, suas correlações. Os investimentos podem ser independentes ou podem ser positivamente ou negativamente correlacionados, a correlação variando de no máximo 1 a no mínimo -1. Por simplicidade, vamos assumir sempre investimentos idênticos, variando somente suas correlações entre positivas (quando um investimento dá lucro, o outro tem maior chance de também dar lucro), independentes (o lucro ou prejuízo de um investimento não tem relação com o de outro) e negativas (quando um investimento dá lucro, o outro tem maior chance de dar prejuízo).
Observe com atenção o gráfico abaixo. Supomos que os ativos são sempre iguais (têm o mesmo retorno esperado e apresentam a mesma volatilidade), variando somente suas correlações, e simulamos a volatilidade final da carteira ao alocar a mesma fração do patrimônio a cada ativo individual (meio a meio quando são dois ativos, um terço em cada quando são três ativos, e por assim em diante). Veja que quanto menor a correlação, mais rápido a volatilidade diminui. O grande trunfo é que o retorno esperado se mantém o mesmo!
Já no próximo gráfico, o que fizemos foi simular a volatilidade final do investimento de um certo percentual em um único ativo, e simulamos este ativo sempre com o mesmo retorno, mas com volatilidades de 10%, 15%, 20% e 25%. Para o mesmo percentual investido no ativo, quanto menor a volatilidade do ativo, menor a volatilidade final da carteira. A consequência direta é que, com o mesmo retorno e com menor volatilidade, é possível alcançar o mesmo resultado final com menos risco de trajetória (a discussão do início desta Carta). Para visualizar no gráfico, mentalize uma linha verticual e analise cada caso. Em abordagem diferente, podemos fazer uma alocação maior ao ativo e obter um melhor resultado final com o mesmo risco (construindo mais patrimônio). Para visualizar no gráfico, mentalize uma linha horizontal e novamente analise cada caso. A escolha fica com o freguês, mas não há freguês que não se agrade.
Partindo dos gráficos, gostaríamos de apontar algumas consequências e diretrizes práticas:
Investimentos correlacionados positivamente têm um ganho menor de diversificação. Não que nunca haja vantagem, mas se a busca por um investimento a mais piora a qualidade de análise de todos os outros ou se pode haver um custo de oportunidade alto em relação a investir com maior pesoo em opções consideradas mais atraentes, deve-se ter cuidado. É o caso, por exemplo, de investimentos em ações por análise artesanal humana. O tempo disponível para analisar, com qualidade, ações de empresas é finito. Ótimas teses de investimento não são muito frequentes. Ideias boas são raras. Buscar analisar e investir em uma ação a mais por apego ingênuo à diversificação e, por isso, piorar a qualidade de análise e deixar de investir um percentual maior em outras empresas, mais atraentes, não é uma boa escolha. Diversificar é essencial, mas diversificar demais pode ser o prenúncio da derrota.
Investimentos pouco correlacionados são altamente desejáveis. A “independência” entre os investimentos, no nosso caso, deve ser buscada pela baixa exposição de ações aos mesmos “fatores” de risco. Estes fatores de risco não devem ser vistos de modo ingênuo ou simplório. Comprar ações do Banco do Brasil, Eletrobrás, Vale e Petrobrás pode implicar uma diversificação setorial, mas não dos fatores de risco que de fato determinam o comportamento do preço da ação (neste caso, a influência estatal determinante). Além disso, o comportamento pouco correlacionado em tempos normais deve ser visto com ceticismo: quando há alguma crise geral no mercado, a correlação de todos os ativos tende a 1 e eles tendem a se comportar de maneira bastante similar – todos caem! Isto porque há fatores de risco em comum a praticamente todos os ativos e abordagens de investimento, que de tempos em tempos se manifestam com mais intensidade, como crescimento econômico, juros, inflação, risco-país, etc. Tentar se proteger demais destes eventos é tarefa tipicamente inglória. Prudência insistente ainda é o melhor remédio.
Investimentos correlacionados negativamente e com bom retorno esperado são o nirvana do enriquecimento. Difícil contar com isso. Fortes correlações negativas não são raras: por exemplo, dólar e bolsa; ou bolsa e uma opção de venda de bolsa. Mas investimentos com correlações negativas e com bons retornos esperados já é uma anomalia extremamente rara e fugaz. Isto porque, no extremo do caso de correlações perfeitamente negativas, o resultado de um jogo será exatamente o contrário do resultado do outro jogo, e, computando-se os lucros e prejuízos de ambos, ainda sobra dinheiro no bolso. Ou seja, uma máquina de imprimir dinheiro, com uma trajetória linear. Difícil imaginar algo melhor que isso. O que quase sempre acontece é que investimentos correlacionados negativamente existem, mas um dos dois ativos possui retorno esperado negativo. É o caso de opções de venda de ações. Comprar opções de venda tende a ter retornos esperados negativos. Caso contrário, ninguém estaria disposto a consistentemente vendê-las. Deve-se, sim, buscar algum grau de correlação negativa nos investimentos realizados. Mas deve-se ser cauteloso para não sacrificar retornos desnecessariamente por excesso de medo. Comprar seguro não é necessariamente uma má decisão, mas se o investidor comprar seguro demais, seguramente não sobrará muito dinheiro no bolso.