Sócio imposto
Por fim, temos uma sociedade dolorida a discutir. A tributação é inescapável. O “como” da tributação, contudo, pode, e deve, ser ponderado antes da tomada da decisão de investimento ou não. Além da alíquota, que deve buscar ser simplesmente minimizada, o momento da tributação tem um efeito muito relevante e que raramente traz riscos, exceto em planejamentos tributários que cruzam zonas cinzentas previsíveis.
No que nos concerne, queremos expor a diferença entre pagar o imposto de renda sobre um investimento de maneira anual ou ao final do período de investimento. Vamos fixar a alíquota em 15%, a título de exemplo. Analise a tabela abaixo.
| Retorno bruto de imposto | Anos | Retorno ao ano com pagamento anual | Retorno ao ano com pagamento ao final | Retorno total com pagamento anual | Retorno total com pagamento ao final | Patrimônio acumulado adicional |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 5% | 10 | 4,3% | 4,4% | 51,6% | 53,5% | +1,2% |
| 10% | 10 | 8,5% | 8,9% | 126,1% | 135,5% | +4,1% |
| 15% | 10 | 12,8% | 13,6% | 232,0% | 258,9% | +8,1% |
| 20% | 10 | 17,0% | 18,4% | 380,7% | 441,3% | +12,6% |
| 5% | 20 | 4,3% | 4,5% | 129,9% | 140,5% | +4,6% |
| 10% | 20 | 8,5% | 9,3% | 411,2%% | 486,8% | +14,8% |
| 15% | 20 | 12,8% | 14,1% | 1.002,4% | 1.306,2% | +27,6% |
| 20% | 20 | 17,0% | 19,1% | 2.210,6% | 3.173,7% | +41,7% |
| 5% | 30 | 4,3% | 4,6% | 248,6% | 282,4% | +9,7% |
| 10% | 30 | 8,5% | 9,4% | 1.055,8% | 1.398,2% | +29,6% |
| 15% | 30 | 12,8% | 14,4% | 3.560,1% | 5.543,0% | +54,2% |
| 20% | 30 | 17,0% | 19,4% | 11.006,5% | 20.092,0% | +81,8% |
Como já vimos, em taxas de crescimento, pouco é muito. Ao se diferir o pagamento do imposto de renda, o valor que deixou de ser efetivamente pago em um ano pode ser investido nos períodos seguintes. Imagine que houve um retorno de R$10.000 e é devido um imposto de renda de R$1.500. Se o imposto for pago em um momento futuro, estes R$1.500 podem ser investidos sem que o imposto devido aumente. Sobre os retornos que estes R$1.500 vão gerar será devido o imposto de renda apropriado, mas a tributação sobre o retorno que gerou os R$1.500 de imposto de renda devido não aumentará.
Este efeito é tão mais relevante quanto maior o tempo e quanto maior o retorno do investimento. Além disso, o efeito não é linear: um ano a mais ou 1% ao ano a mais de retorno tem ganho maior que o ano anterior ou o 1% de retorno ao ano anterior. No nosso caso limite, de um retorno de 20% ao ano por 40 anos, chega- -se a uma diferença de patrimônio final de assustadores 134%. Em casos mais intermediários, um retorno de 10% ao ano por 20 anos, a diferença é de 15%, ainda relevante. Se calcularmos o resultado de 1% a mais de retorno ao ano pela “pão-durice” e por pequenos ajustes e mais esses 15% do diferimento tributário, o resultado é de 37% a mais de patrimônio final, obtidos com exatamente os mesmos investimentos.
O que torna o assunto um pouco menos óbvio é que os retornos dos investimentos não são conhecidos de antemão, planejamento tributário custa e oportunidades melhores podem ter regime de tributação pior que oportunidades piores. Observe na tabela que em nenhum caso um investimento com pagamento de imposto ao final do período gerou um patrimônio maior que um investimento com retorno uma faixa acima (+5%) e com pagamentos anuais. Apesar disso, enquanto regra geral, o que deve ficar claro é que pagar imposto mais tarde é melhor que pagar mais cedo e que, se os prazos e os retornos forem o bastante, não se trata de meros arredondamentos de casas decimais.