Reais retornos: um balde de água fria
Quando se trata de calcular taxas de crescimento de patrimônios ao longo do tempo, as expectativas, infelizmente, costumam ser frustradas. Para calcular a taxa de crescimento do patrimônio de uma pessoa, o que importa é o retorno sobre o patrimônio total, líquido de todos os custos, em um dado intervalo de tempo.
Inicialmente, todos os custos devem ser deduzidos. Inclusive aqueles pequenos itens talentosamente esquecidos: em um exemplo prosaico de um apartamento para aluguel, trata-se da taxa de condomínio nos meses vazios, das comissões dos corretores, das reformas ao longo dos anos, das taxas de cartório, do ITBI, etc. Além disso, antes de contar o dinheiro que sobrou no bolso, é preciso ainda duas outras etapas: pagar o governo (os diversos tributos devidos, o mais impactante em geral o imposto de renda) e ajustar o retorno pela inflação do período.
Enquanto os “pequenos itens” são uma banal (mas teimosa) questão de aceitação, a contabilização da tributação e da inflação merece mais detalhamentos. O imposto sobre a renda (e o ganho de capital, que é só uma modalidade de imposto de renda) incide sobre o valor nominal dos ganhos, sem fazer ajustes pela inflação do período. Por isso, um retorno de 10% em um ano, com tributação dos ganhos a uma alíquota de 15% e corrigida por uma inflação no período de 4%, transforma-se em um retorno bem menor, de 4,3%. A conta que deve ser feita (e tatuada na memória) é:
\(10\%(1 - 15\%) = 8,5\%\)
\(\frac{1 + 8,5\%}{1 + 4\%} - 1 = 4,3\%\)
A próxima etapa do nosso cálculo é o ajuste pelo intervalo de tempo decorrido, para calcular o retorno ao ano. Um imóvel comprado há 20 anos, em um período em que a inflação foi de 5% ao ano, que hoje vale 10 vezes mais que quando adquirido (já sendo completamente realista com os custos envolvidos e já considerando a tributação), pode não ter sido um negócio tão fantástico quanto se imaginava. 5% de inflação ao ano, após 20 anos, equivale a 165% de inflação no período. Ou seja, o valor do imóvel se multiplicou por 3,77 vezes, não por 10. Uma valorização de 3,77 vezes em 20 anos equivale a uma taxa de crescimento de 6,8% ao ano. Sim, muito satisfatória. Contudo, não tão excepcional quanto se supôs inicialmente. E fomos bastante generosos nas premissas. Esta segunda etapa da conta consiste em elevar o retorno líquido (o que está ali em cima) pelo inverso do tempo. Este último passo é absolutamente necessário: deve-se buscar um equilíbrio entre retornos totais satisfatórios em períodos de tempo também satisfatórios. Afinal, nossa vida não dispõe de oferta ilimitada de tempo.
\(3,77^{1/20} - 1 = 6,8\%\) ao ano
O balde de água fria é que o patrimônio das pessoas (sim, muito provavelmente inclusive o seu, leitor) cresce muito mais devagar do que elas imaginam. Uma taxa de crescimento de 5% ao ano quadruplicaria o patrimônio inicial após 28 anos, feito raríssimo, por exemplo, entre pessoas que já começam nossa caricatural corrida com um pontapé inicial por ter herdado algum patrimônio relevante (enfrentando, portanto, muito mais cedo, o “problema” de conseguir investir volumes significativos de patrimônio a taxas de crescimento similares às que geraram o patrimônio – falaremos mais sobre isso adiante). O fato é que, se as conversas descompromissadas fossem razoavelmente acuradas, estaríamos todos bilionários.