Re-investir
Uma premissa dos nossos raciocínios esteve até agora relativamente implícita: a de que as estratégias permitem reinvestimento (ao menos para a escala que nos interessa). Ou seja, o retorno de um período pode ser reinvestido na mesma estratégia, ano após ano, o que permite a ocorrência do nosso desejado processo exponencial. As estratégias são a abordagem de investimento escolhido: investimento em ações por análise fundamentalista; incorporação imobiliária; investimento em terras; etc. Na prática, as estratégias permitem, sim, reinvestimento. Contudo, é muito frequente que as melhores estratégias permitam reinvestimento somente até um limite, a partir do qual perdem rapidamente sua eficiência.
Um saco de balinhas que se compra por R$100 e é vendido por um ambulante por R$200 gera um retorno de 100% em um período de tempo muito curto. Contudo, a estratégia tem um limite muito pequeno: se o empreendimento for bem-sucedido, rapidamente vai ser necessário contratar pessoas, alugar um ponto comercial, pagar impostos, etc. E o retorno sobre o capital investido vai cair, muito (observe: mesmo que o retorno total em reais aumente, a taxa de crescimento diminui). Outro exemplo, menos extremo, mas muito comum, são pequenos negócios fortes geradores de riqueza, mas que não são mais expansíveis com a mesma eficiência. Estamos pensando, por exemplo, nos negócios responsáveis pelo enriquecimento inicial de uma família, ou em profissionais autônomos com altas remunerações. Essa regra econômica é quase tão infalível quanto a gravidade: quanto maior o valor a ser investido, menores tendem a ser os retornos. É possível postergar o declínio, o que sempre é causa relevante do sucesso na construção de grandes patrimônios, mas em algum momento inevitavelmente a diminuição de ritmo virá.
O que deve ser verificado de tempos em tempos, portanto, é se uma estratégia que não pode ser mais expandida continua de fato tão atraente. Se não houvesse incerteza quanto ao retorno que cada estratégia de fato irá gerar, todo o valor possível seria investido na estratégia de maiores retornos, até seu esgotamento; em seguida, todo o valor residual seria investido na segunda melhor estratégia; e assim sucessivamente. Mesmo ignorando a incerteza dos retornos, o que também ocorre é que a energia necessária para executar uma estratégia proíbe que outras sejam executadas com a mesma eficiência. Um negócio rentável, mas pouco escalável, muitas vezes empurra a poupança gerada por esse negócio para estratégias de investimento de baixo retorno, mas que demandam pouca atenção. Isto pode não ter um efeito tão imediato, mas ao longo do tempo é determinante de quão longe se consegue chegar e uma das maiores limitações para que alguns patrimônios ultrapassem um certo patamar.
No nosso caso, estamos sempre considerando investimentos no mercado financeiro. Enquanto é plenamente possível que outras opções sejam rentáveis até escalas muito grandes, não é algo tão comum. Em investimentos financeiros, a escala possível das estratégias é quase sempre muito maior que o imaginável pelo investidor, na casa de bilhões. E esta é uma das maiores vantagens desta classe de estratégias: apesar de os retornos não serem tão excepcionais quanto o de pequenos empreendimentos (uma estratégia em mercado financeiro que entregue 20% ao ano consistentemente é considerada excepcional, por exemplo), dado um capital inicial razoável, é possível fazer a mágica dos juros compostos funcionarem a seu favor com mais facilidade, com mais frequência e por muito mais tempo do que em outras classes de estratégias.
Se o capital inicial ainda não tiver ultrapassado um certo patamar, contudo, o melhor é concentrar os esforços em construí-lo, ao invés de se preocupar em rentabilizar um valor ainda pequeno. Se o capital inicial for de R$1.000, mesmo uma estratégia que gere 20% ao ano por 30 anos, multiplicando o patrimônio por 237 vezes, gerará somente R$237.000. Mágico, com certeza, mas ainda é menos de ¼ de um milhão, ainda não fez ninguém realmente rico. Por outro lado, se o capital inicial for de R$100.000, o valor acumulado será de R$23,7 milhões de reais. E assim sucessivamente. Se as escolhas não forem compatíveis, é mais eficiente primeiro buscar gerar esse montante, para depois ceder tempo e energia pessoal para investí-lo da melhor maneira que se consiga.