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A ordem importa

Estávamos, até aqui, considerando que o processo de acumulação de patrimônio é um produtório, uma sequência de multiplicações: a cada novo período (a cada ano, por exemplo), multiplica-se o patrimônio anterior pelo retorno percentual do período que se encerra, e assim por diante. Nesse mundo, a ordem dos retornos não importa. Um ano de bons resultados seguido de um ano de maus resultados é tão bom ou tão ruim quanto o inverso.

Vamos dividir esta dinâmica em dois fluxos de caixa para apontar um detalhe muitíssimo importante. De um lado, temos o resultado dos investimentos. Do outro, temos o consumo de uma pessoa hipotética. O primeiro componente varia: há anos bons e ruins. O segundo é fixo.

Para exemplificar como esse processo acontece, vejam, na tabela seguinte, que um saldo inicial de R$4.000.000 e uma despesa fixa de R$200.000 ao ano, chegam a saldos finais diferentes se a ordem dos retornos (no caso, 20% em um ano e -8,7% em outro ano) for invertida. Em um caso, chega-se ao mesmo saldo inicial. Em outro, o patrimônio foi reduzido.

Ano Saldo inicial Retorno % Retorno R$ Retirada Saldo final
1 4.000.000 20,0% 800.000 200.000 4.600.000
2 4.600.000 -8,7% -400.000 200.000 4.000.000
Ano Saldo inicial Retorno % Retorno R$ Retirada Saldo final
1 4.000.000 -8,7% -347.826 200.000 3.452.174
2 3.452.174 20,0% -690.435 200.000 3.942.609

Agora vamos expandir o exemplo para múltiplos períodos. Nos gráficos abaixo, a carteira A e a carteira B têm um rendimento de 5% ao ano, saldo inicial investido de R$4.000.000,00 e retiradas anuais de R$200.000,00, mas a carteira A tem anos bons seguidos de anos ruins e a carteira B têm exatamente os mesmos rendimentos anuais, mas em ordem inversa, ou seja, anos ruins seguidos de anos bons. Observe a diferença nos saldos de cada carteira. A carteira B te leva à falência, enquanto a carteira A vai te dar tranquilidade no pagamento de suas despesas. Processos exponenciais, tão poderosos quando a taxa de crescimento é positiva, são igualmente poderosos quando o sinal se inverte – cuidado!

O grande ganho de um pouco mais de frugalidade, inclusive para patrimônios já relevantes, é a flexibilidade de trajetórias. A ordem dos retornos importa. E quanto menos importar, melhor para o processo de acumulação de patrimônio. Nos casos mais catastróficos, um padrão de consumo que considera sempre o cenário de anos áureos pode criar problemas à frente muito maiores que aqueles 35% de patrimônio a menos, quando se mostrar insustentável nas primeiras turbulências. Sobretudo se ponderarmos que as despesas não são fixas, mas crescentes: as famílias crescem, jovens demoram a ter renda própria relevante (quem dirá acumular patrimônio próprio relevante) e as gerações seguintes dificilmente aceitam sem muita resistência um padrão de consumo menor que o que lhes foi habituado. Nos cenários menos dramáticos, tomar risco se torna “mais barato”: o acerto traz mais ganho e a perda traz menos prejuízo.

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